A joy forever

fevereiro 3rd, 2010 by B.F. Carvalho

Liisa Lounila, “Revol” (2004). Glitter on MDF. Vi no Kiasma, em Helsinki.

Quando eles vêm, é em bando

fevereiro 3rd, 2010 by B.F. Carvalho

De um tempo para cá eu comecei a desenvolver um gosto por música barroca. Quer dizer, gostar eu já gostava – só não tinha parado para pensar que basicamente tudo que eu gostava de música clássica cabia dentro de um intervalo histórico de, sei lá, 70 anos.  E como bem dizia Lacan “esse negócio de coisa sem nome é uma merda” – quando você descobre o NOME das coisas um maravilhoso universo de possibilidades se abre à sua frente. “Isso se chama música barroca” “SÓÓÓÓÓÓÓÓ VÉI”.

ANYWAY! Eu tenho saído para assistir a um concerto aqui e ali e tal. Sempre na onda do Aleijadinho: “QUANTO MAIS BARROCO MELHOR”. Mas o negóSS é meio que um problema (sobre o qual é até interessante pensar): eu não consigo acompanhar todos os eventos. Se eu quiser ir a todos os concertos de música barroca em Nova York, eu vou ter de arranjar outro emprego. Mas contraste a minha  situação com a de, sei lá, o Dr. Aristides (pessoa hipotética), advogado de causas de família em Paracatu, MG, cujo fervor barroco em MUITO supera o meu, seja em conhecimento musical ou em simples capacidade de apreciação DO TREM. Pois é – o Dr. Aristides, coitado, nunca VIU um violoncelo ao vivo.

Enquanto isso, meu problema é esse:

“MUSIC BEFORE 1800” SERIES: JUILLIARD BAROQUE
Monica Huggett, the British violinist and Baroque doyenne, leads her bright new group in a historically informed performance of Bach’s Brandenburg Concertos. (Corpus Christi Church, 529 W. 121st St. 212-666-9266. Feb. 7 at 4.)

THE TRINITY CHOIR
In recent decades, Estonia, despite its small size, has produced a stream of first-rate choral composers. Stefan Parkman’s concert with the renowned choir of Trinity Church Wall Street features works by two of the most admired, Arvo Pärt and Veljo Tormis, among others. (Broadway at Wall St. trinitywallstreet.org. Feb. 8 at 7:30.)

ZUILL BAILEY
Bailey, an exceptionally charismatic young musician, plays Bach’s Six Suites for Solo Cello with both interpretive insight and amorous intensity. He performs them this week in a CD-release concert at (Le) Poisson Rouge. (158 Bleecker St. lprnyc.com. Feb. 9 at 7:30.)

Por tipo $20 cada um. E tem quatro dias que eu estou aqui PONDERING em qual que eu vou. E quer saber? Eu tenho uma obrigação cívica, em nome dos Doutores Aristides deste mundo, de ir aos TRÊS.

E é o que farei.

Globalização = fim dos tempos

janeiro 15th, 2010 by B.F. Carvalho

Tem o quê? Dez, quinze anos que a Naomi Klein tá tentando chamar a sua atenção para o problema? E você aí fingindo que não é com você? E agora já era, porque um sujeito no Cazaquistão fez um cover de uma música do Carrapicho, e você sabe o que isso significa, né? O ovo da serpente chocou e A CASA CAIU MANO. Não é à toa que o sujeiro resolveu se matar em 2007.

Uau.

janeiro 3rd, 2010 by B.F. Carvalho

Sem comentários, mesmo porque acabei de ver isso no Imprensa Marrom e ainda não digeri direito. Vamos ver a barulheira que os delinquentes vão fazer contra o documentário.

P.S.: Feliz ano novo.
P.P.S.: Por falar nisso, uma das minhas resolutions é blogar mais. Vamos ver se funciona.

Do I look like that sort of person?

novembro 6th, 2009 by B.F. Carvalho

“Am I alone in thinking” é um livro recém-lançado do Daily Telegraph com uma coleção de cartas ao editor não publicadas. A campeã, de acordo com o próprio editor, está abaixo:

Sir, I find it intensely humiliating to be asked by airport security staff if I have packed my own bag. This forces one to admit, usually within earshot of others, that I no longer have a manservant to do the chore for me. Gentlemen should be able to answer such questions with a disdainful: “Of course not! Do I look like that sort of person?”

Fenomenal. Como o blogueiro da Economist, desejo com todas as minhas forças que a carta seja verdadeira.

Caminho

outubro 21st, 2009 by B.F. Carvalho

Para uma cidade tão plana, as subidas do Central Park Loop assustam o ciclista iniciante. Mas fazendo a volta em sentido anti-horário, depois que você passa pelo Great Lawn à sua esquerda, é um descidão até ali chegando na Central Park South, e aí vem a parte a parte curiosa dos meus domingos de manhã – turistas. Não os turistas de sempre, com estes se acostuma rápido, mas um tipo muito específico – turistas de saída, arrastando malas enormes e casacos e sacolas, empoleirados nos bancos perto do Columbus Circle tomando café e olhando nos pequenos displays das suas câmeras as fotos tiradas nos últimos dias. Devem ter acabado de fazer check-out no seus hotéis em midtown e saíram subindo a Broadway carregando essa tralha feito retirantes até chegarem ao Central Park. Tudo isso por mais meia horinha, só mais 15 minutinhos, antes de pegar um táxi ou o A até o JFK. E passando por eles enquanto pedalo fico pensando que lugar é esse que leva as pessoas a se submeterem a esse tipo de incoveniência por só mais um minuto respirando esse ar. E penso neles indo embora e agradeço pela graça recebida e me lembro que um dia, cedo ou tarde, eu vou ter de ir embora também.

A joy forever

agosto 26th, 2009 by B.F. Carvalho

criacuervos - Share on OviCarlos Saura, Cría Cuervos, Espanha, 1976

Provavelmente sem querer, ele fez o melhor filme de todos os tempos sobre a infância.

Jaboticaba, Kichute, Marina Silva

agosto 21st, 2009 by B.F. Carvalho

wtf - Share on Ovi

UPDATE: Maldita imprensa golpista! O meu post abaixo foi baseado em um artigo da Época de Maio de 2008, que recebeu pouquíssima repercussão dada a importância da coisa. Hoje, Marina Silva diz em uma entrevista na Folha que não é criacionista, mas estava defendendo o direito das escolas religiosas de ensinarem o criacionismo, desde que se atenham ao currículo tradicional. From the horse’s mouth:

Um jovem me perguntou o que eu achava de as escolas adventistas ensinarem o criacionismo. Respondi que, desde que ensine também a teoria da evolução, não vejo problema. A partir daí, as pessoas começaram a dizer que eu estava defendendo o criacionismo. Sou professora, nunca defendi essa tese e nem me considero criacionista. Porque o criacionismo é uma tentativa de explicação como se fosse científica para responder a questão da criação em oposição ao evolucionismo.

Então, com o alerta acima, segue o post original.


Longe de mim falar mal de Marina Silva numa hora dessas. No que me concerne, ela é uma santa, e eu sou PV desde criancinha. Com Marina Silva de um lado e Dilma Roussef do outro, as eleições 2010 vão pegar fogo. Adicione-se a isso que ano que vem também tem Copa do Mundo, e eu estou pensando seriamente em voltar para o Brasil.

Marina Silva de um lado e Dilma Roussef do outro. Você consegue pensar em alguma coisa que deve causar mais desprezo na Dilma que a Marina Silva PENSANDO QUE É GENTE e querendo pagar de candidata? Quando trabalhavam juntas, a vida de uma (Marina) consistia em azucrinar a vida da outra (Dilma) bloqueando as obras maravilhosas do PAC, afinal, Marina era dona do nihil obstat ambiental do governo Lula. Tanto fez, que pediram para ela dar licença. Não sei se adiantou muito – o cara novo também reclama das mesmas coisas, mas parece que ao contrário de Marina Silva, ele dá condição de jogo. Então – mal Dilma Roussef se vê livre desse ENCOSTO, ela tem a EMPÁFIA de ir para o PV e se candidatar a presidente. Aí não tem câncer que aguente, né Dilma? KARMA IS A BITCH e Dilma deve estar louca para dizer umas verdades para Marina Silva.

Como eu disse, essa eleição promete. Ainda arrisca o Ciro Gomes sair candidato também! Deus do céu – se eu fosse a Net eu ia vender o pay-per-view da eleição.

Mas até aí é só diversão né? Mas deixa eu mudar de assunto um pouquinho aqui porque lendo sobre isso eu notei algo que me deu um NÓ na cabeça: a Marina Silva é missionária da Assembléia de Deus e (tcham, tcham) CRIACIONISTA.

SIM, PÁRA TUDO. Criacionista. Quando eu li isso, fiquei uns quinze minutos em choque. Parado, com as mãos no teclado, a boca semi aberta e um thousand-yard stare em direção à tela do computador. A ex-Ministra do Meio Ambiente do Brasil, respeitada como um potentado na área, é criacionista. O nível de bizarrice disso é como se me contassem que o presidente da Planned Parenthood é um padre católico.

Deixe-me explicar o nível do surrealismo. O pacote Assembléia de Deus vem com uma série de items, um arcabouço filosófico (sic), e o criacionismo é só um pedaço. Outros items são essenciais. Por exemplo, a crença de que o homem é o senhor da criação, o pináculo da obra divina e senhor de tudo que Deus colocou sobre a Terra. Outra parte é que esta realidade, esse vale de dor e lágrimas que compartilhamos, é uma realidade transitória e efêmera. A qualquer momento, “como vem o ladrão de noite”, Jesus voltará e todos seremos julgados, e os ímpios serão jogados no lago de fogo e os justos ganharão a vida eterna no que imagino que seja uma versão celestial da Costa do Sauípe.

É nisso que Marina Silva acredita. UM o homem está aqui para usar e abusar do planeta e DOIS é bom sempre deixar uma muda de roupa separada porque qualquer hora O Homem vem aí. Agora vocês me digam como uma pessoa que acredita nisso consegue ser Ministra do Meio Ambiente? Como uma pessoa que acredita nisso embarga obras que potencialmente servirão aos homens em nome do impacto ambiental que pode matar, say, uma garça?

Eu te conto como – Marina Silva nunca parou para pensar nisso. Ela nunca sentou com um copo de qualquer merda na mão e fez uma profunda auto-análise tomando como premissa “será que tudo que eu sei está errado?”, como qualquer homem de bem deve fazer periodicamente. Não. Marina Silva simplesmente acumulou um coletivismo triunfalista em cima do outro – ambientalismo com assembléia de Deus com luta de classes sem nunca parar para pensar que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

E o fato que essa mulher, esse intelecto rasteiro, ficou no governo de um país como o Brasil o tempo que ficou, praticamente sem ser incomodada a não ser por pressões de dentro do próprio governo, mostra, mais uma vez, que isso só pode ser aquele tipo de coisa que só existe no Brasil. Jaboticaba, Kichute, Marina Silva.

Blitzkrieg Bop

agosto 2nd, 2009 by B.F. Carvalho

Direto de Alpine, Texas. Para saber mais: Stormhoek.com

Ortodoxo

agosto 1st, 2009 by B.F. Carvalho

Mao_Jordan_cropped - Share on Ovi

Wladimir Pomar é “o maior especialista brasileiro em China”. Entre aspas porque não fui eu quem disse – foi o Idelber, o maior especialista brasileiro em Irã.

A China é um assunto pelo qual eu tenho um certo interesse, então a existência de alguém reconhecido como “o maior especialista brasileiro em China” atiçou a minha curiosidade e claro que eu cliquei no link e AINDA BEM QUE ARREPENDIMENTO NÃO MATA, PORQUE SENÃO JÁ ESTARIA EU DURO E GELADO NO CHÃO DO MEU APARTAMENTO.

Mas vocês já sabem eu não caio em roubada sozinho, então vou compartilhar com vocês algumas pérolas de Wladimir Pomar. Os primeiros dois terços da entrevista são um remédio contra a insônia. É Wladimir tentando entender as mudanças atuais da China sob a luz de um sub-marxismo dos mais rasteiros. É triste. Não, mentira – É HILÁRIO.

Mas passando por isso chegamos na parte crucial da entrevista, onde ele é perguntado sobre a repressão política na China. A conversa começa em Internet. O seguinte diálogo toma lugar:

Fórum – Parte significativa da esquerda faz restrições ao sistema chinês e a acusa de ausência de instrumentos democráticos, como a internet, por exemplo…
Pomar – É muito desconhecimento sobre a China. Ela, como qualquer país, tem algum tipo de controle sobre a internet.

Fórum – Mas em geral os controles são…Pomar – Estados Unidos, Inglaterra, França, Alemanha, tem controle.

Fórum – Não tem controle.Pomar – Claro que tem.

Fórum – Controle?Pomar – Eles não dizem que estão controlando, mas tem controle. Eles têm controle eletrônico, estão em cima, cortam a internet quando precisam. O que a China faz é isso. Não vou dizer que a China não faz, ela faz.

Este já seria o momento onde o jornalista sério pediria para sair para cagar e desapareceria. Mas esta é a revista Fórum né? E não confunda com aquela revista Fórum dos bons tempos, que vinha encartada na Ele&Ela, apesar do conteúdo ser o mesmo – fantasias masturbatórias. Esse “Fórum” vem de “Social Mundial” mesmo.

Logo o assunto cai na Massacre da Praça da Paz Celestial. Ele tenta driblar a pergunta e sai numa tangente onde fala bobagens dignas de nota. Mostro aqui só o comecinho:

Se pegarmos a China de hoje, do ponto de vista de democracia de base, é provavelmente a maior democracia do mundo(…)

Segue-se a esta frase uma diatribe sobre a capilaridade do Partidão na China. De onde se conclui que esse negócio de eleição direta é overrated. Democracia boa é um eterno orçamento participativo. Mas logo o assunto da Praça da Paz Celestial surge de novo. Vamos ver o que Wladimir tem a dizer a respeito:

Fórum – As manifestações e as greves não são fortemente reprimidas?
Pomar – Cadê a fotografia? (…)

tianamen_square_1989 - Share on OviQUAL FOTOGRAFIA, WLADIMIR? ESSA?

Tem mais. Esta é a parte “interessante” (no sentido da praga – heh – chinesa) onde o homem Wladimir, confortável entre amigos, deixa cair todo o pragmatismo revolucionário que aprendeu no berço e em suas “mais de 20″ viagens à China.

Justiça seja feita ao maior especialista brasileiro em Irã – é aqui que Idelber e Wladimir, apesar daquele considerar este “o maior especialista brasileiro em China”, divergem. Idelber acha que a visão de Wladimir sobre o massacre é “ORTODOXA”. Convido vocês a conhecerem toda a “ortodoxia” de Wladimir Pomar:

Mas quando algo explode, você tem dois caminhos. Ou deixa ser devorado ou devora alguns para resolver. Foi o que aconteceu em 1989. Chegou num ponto que ali era o seguinte, ou “nós” ou “eles”. Ali não tinha ninguém inocente, embora a orientação para os soldados fosse a de só usar as armas em último recurso. Tanto que apesar da dimensão que a coisa tomou, não teve mais de dois mil mortos. Dois mil mortos num universo de trezentros mil, quatrocentos mil, não é nada. (…)

Morreram também muitos soldados. A maior parte, o maior contingente de mortes, foi de soldados, que foram atacados por bombas molotov, ácidos, gases. Não foi um negócio espontâneo. Há ali uma tentativa organizada e a coisa descambou para isso. (…) Chega num momento que não tem jeito. Ou você é degolado, ou degola um ou dois e resolve o problema.

E quando você acha que não dá pro Wladimir continuar cavando o próprio buraco porque ele vai acabar saindo (heh) na China, ele fecha com chave de ouro:

Não vamos achar que você faz omelete sem quebrar os ovos.

“Ortodoxo” é uma palavra que nem passou pela minha cabeça para descrever a imundície que saiu da boca desse sujeito. Millôr Fernandes disse “não se amplifica a voz dos imbecis”, mas o que fazer quando se tropeça num sujeito desses? A vontade de ignorar é muito grande. A vontade de alertar os outros é maior.